O que o mercado espera de nós, jornalistas? Imagem: leandrojornalista.blogspot.com.br

O que o mercado espera de nós, jornalistas?

Rodrigo Rocha

Rodrigo Rocha Publicado em 16 de maio de 2017

O site norte-americano Career Cast, que pesquisa e aponta tendências para as profissões, liberou recentemente uma lista com as 10 melhores e as 10 piores carreiras para 2017. Na análise, quatro aspectos principais foram considerados: as perspectivas de ascensão, a renda, o ambiente de trabalho e o nível de estresse.

Na lista das 10 piores profissões, a primeira e a segunda colocadas este ano são tradicionalmente exercidas por jornalistas: repórter de jornal, especialmente os de política; e apresentador de rádio ou TV. Surpreendente? Nem tanto, já que por causa da pressão e situações de perigo a que estão constantemente submetidos, os jornalistas costumam aparecer no topo dessas listas.

Por outro lado, entre as 10 melhores profissões deste ano figuram carreiras como a de estatístico, analista de pesquisa de operações, analista de segurança da informação, cientista de dados e matemático, por exemplo. Bem diferentes dos jornalistas, certo? Nem tanto.

Assim como os comunicadores, todos os profissionais inclusos no top 10 das melhores carreiras são ‘organizadores da informação’. Mas por que os jornalistas integram, então, o grupo das piores carreiras? Arrisco dizer que a resposta está na falta de prática para estabelecer metas e se comprometer com o alcance de resultados.

Em seu artigo acadêmico Ethos do Jornalismo o Século 21: Modelo de Negócio, Profissão e Gênero, publicado na Revista Tropos: Comunicação, Sociedade e Cultura, a jornalista Luana Cruz afirma que ” o jornalismo é uma profissão aberta, não linear, na qual não existem conceitos estáticos”. Talvez isto seja, ao mesmo tempo, seu libertador e o seu algoz.

Na análise, a mestra em Estudo de Linguagens pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG) mostra as ameaças sofridas pelo jornalismo e reflete sobre como o modelo de negócio, a profissão e o gênero jornalístico precisam se reinventar. As experiências que acumulei nesses quase 15 anos de carreira parecem confirmar o que Luana afirma.

Sim, os veículos de comunicação precisam redescobrir formas de fazer dinheiro com a venda de informações — que estão cada dia mais acessíveis e descentralizadas —, e os jornalistas precisam se reposicionar no mercado de trabalho, agora que não são mais a única fonte oficial de informação.

Acredito que boa parte disso tenha a ver com duas questões centrais: o resgate do gênero jornalístico, ou seja, do rigor na apuração das informações para a produção de conteúdos de qualidade, associado à diversificação de formatos (videoreleases, audioreleases, lives, stories, listas e tudo mais o que for possível); mas, sobretudo, com a adoção de uma postura empreendedora na sua rotina de trabalho.

Entre os comunicadores, não são poucos os que pensam que os publicitários são formados para empreender e os jornalistas, para conquistar um emprego. De fato, publicitários estão muito mais acostumados a trabalhar a partir das chamadas metas SMART: eSpecíficas, Mensuráveis, Atingíveis, Relevantes e Temporais.

Mas isso também pode — e deve — ser uma prática dos jornalistas que desejam sobreviver dentro e fora das redações, nas assessorias de Comunicação, de Imprensa, nas consultorias estratégicas, na produção de conteúdo especializado ou em qualquer outra área que demande profissionais especialistas no tratamento da informação.

O momento exige saber planejar e monitorar ações, mas também adotar uma postura empreendedora para gerir a informação. Mas não se engane: o aprendizado é permanente. Por isso, separei algumas dicas coletadas não apenas na vida prática, mas também em cursos, palestras e pesquisas por aí:

1. Pare de pensar no seu chefe como chefe e trate-o como um cliente que você precisa conquistar e manter diariamente;
2. Arranje tempo para planejar. Apagar incêndios, fazer a foto da reunião e/ou escrever a matéria para o site da instituição que você assessora não pode ser a atividade central de um gestor de Comunicação;
3. Estabeleça métricas de sucesso mensuráveis e monitore o que faz: centimetragem? Acessos? Capilaridade? Escolha o que for mais adequado;
4. Avalie sua estratégia periodicamente e reoriente o rumo sempre que necessário;
5. Analise cenários e nunca deixe de se perguntar: o que meu cliente tem a ver com isso?;
6. Otimize o uso de recursos humanos e financeiros. A estratégia mais cara nem sempre é a mais eficaz;
7. Separe tempo para ler, estudar, participar de eventos e cursos na área;
8. Não entregue relatórios apenas. Provoque reuniões;
9. Surpreenda sempre: o que você ainda não fez, mas acredita que pode dar certo?

 

Repensar o modo como fazemos as coisas é sempre desafiador, mas costuma trazer excelentes resultados. Bom trabalho!

 

Rodrigo Rocha é jornalista, especialista em Gestão da Comunicação nas Organizações e sócio do Conversa Coletivo de Comunicação Criativa.

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