Facebook vai cobrar pelo acesso a notícias. Mais uma tentativa de salvar o jornalismo?

Facebook vai cobrar pelo acesso a notícias. Mais uma tentativa de salvar o jornalismo?

Kadydja Albuquerque

Kadydja Albuquerque Publicado em 6 de setembro de 2017

No final de agosto, Mark Zuckerberg anunciou que o Facebook começará a cobrar pelo acesso a notícias via rede. O sistema funcionará em um esquema parecido com o de grandes portais, chamado paywall: quando o usuário atingir o máximo de notícias lidas, ele precisará pagar para ter mais acesso.

Apesar dos brasileiros não precisarem se preocupar com isso agora – o sistema deve ser implementado primeiro em países da Europa e nos EUA, muitas dúvidas surgem com este anúncio.

De acordo com o CEO, o sistema é uma parceria com os principais portais de notícia e publicadores europeus e norte-americanos, mas vai se estender para os demais países. Por ora, ainda não se sabe como os portais brasileiros irão fazer parte do paywall e como isso vai influenciar o consumo de notícias dos brasileiros via redes sociais.

De acordo com uma pesquisa do Instituto Reuters de Estudos sobre Jornalismo, realizada em 2016, 72% dos entrevistados brasileiros afirmaram que usam as redes sociais como fontes de notícias. Só perdemos pra Grécia (74%) e pra Turquia (73%).

De fato, esses números absolutos não revelam a qualidade das informações consumidas, ou seja, quais são as fontes que estão provendo notícias para os usuários da rede. O paywall é mais um passo do Facebook na tentativa de valorizar a produção jornalística “confiável” e, para isso, a rede irá reverter as receitas de acesso para os portais cadastrados no sistema. “Como cada vez mais as pessoas leem notícias em locais como o Facebook, nós temos a responsabilidade de criar uma comunidade melhor informada”, escreveu o CEO.

Para Zuckerberg, isso não é possível sem o jornalismo. Ao final de sua publicação, ele ressalta:

“dar voz às pessoas não é suficiente sem ter organizações dedicadas a descobrir novas informações e analisá-las”, e complementa: “queremos garantir que mais repórteres e publicadores em todo o lugar possam continuar fazendo o seu trabalho”.

Bem, só o início dessa afirmação acima já renderia um artigo (e vou até me preparar para escrevê-lo), mas é bem interessante perceber a tentativa da maior rede social do mundo em garantir que a indústria jornalística sobreviva aos atuais modelos de produção e disseminação de conteúdo (que empoderam os usuários e as organizações, criando canais de comunicação diretos entre eles).

Já escrevi sobre o Facebook Journalism Project, no início deste ano, quando a rede implementou alguns recursos para identificação de notícias falsas e também começou a disponibilizar o Instant Articles, plataforma de publicação da empresa criada em parceria com sites e jornais (Washington Post, Fox News, El País e Hindustan Times são alguns deles).

Fontes de notícias em destaque

Falando de Instant Articles, o Facebook implementou uma atualização na plataforma para, segundo eles, ajudar mais pessoas a reconhecerem as fontes das notícias lidas na rede. Funciona assim: quando o usuário pesquisar por um artigo ou ver um que esteja em alta, poderá ver a logomarca do publicador em evidência ao lado.

Instant Articles do Facebook, lançado para todas as empresas em abril, permite que os veículos disponibilizem aos usuários do Facebook com artigos com carregamento mais rápido e sem levá-los a um link externo. Com o IA, é possível usar o Facebook’s Audience Network para monetizar o conteúdo e mensurar as visualizações por meio de ferramentas como o Adobe Analytics, com Score, entre outras. Zuckerberg anunciou atualizações para valorizar a promoção das empresas na plataforma.

Ainda não temos dados de como essas ações do programa de apoio ao jornalismo do Facebook estão mudando a forma como as pessoas consomem notícias e, principalmente, como isso vai ajudar a indústria jornalística, seja o veículo de qual porte for. Mas é muito interessante acompanhar essa movimentação e perceber que há um reconhecimento do Facebook de que o jornalismo ainda pode ser o caminho mais confiável para selecionar quais informações devem ser consumidas neste cenário de caos informacional.

A movimentação da rede neste sentido pode redimensionar a importância do jornalismo nos dias atuais. Pode, inclusive, definir daqui pra frente quais fontes de notícias terão credibilidade frente aos seus usuários. Afinal, não vamos subestimar o poder do Facebook em promover mercados, principalmente no Brasil, onde temos mais de 100 milhões de pessoas na rede.

Para as organizações públicas e privadas, o programa do Facebook pode ser positivo. Ao criar meios para legitimar o papel da imprensa na produção e divulgação de informações confiáveis, a rede fortalece o mercado, que pode ser melhor explorado pelas organizações para legitimar suas ações perante seus públicos.

Aos veículos, resta o desafio de entender como utilizar os recursos do programa do Facebook para integrar essa frente jornalística que hoje discute novas soluções para distribuir conteúdo, engajar e construir audiências para suas reportagens.

Kadydja Albuquerque é especialista em Gestão da Comunicação nas Organizações e sócia do Conversa Coletivo de Comunicação Criativa.

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