A Era da Pós-Verdade: o peso das notícias falsas Ilustração: Slate | Foto: Medioimages/Photodisc

A Era da Pós-Verdade: o peso das notícias falsas

Kadydja Albuquerque

Kadydja Albuquerque Publicado em 25 de abril de 2017

Em 2016, a Oxford Dictionaries elegeu “pós-verdade” (post-truth) como a palavra do ano e a definiu da seguinte forma: um adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

Sendo assim, em tempos de mundo polarizado, conectado e empoderado no compartilhamento de suas opiniões “no matter what”, precisamos falar sobre o impacto das notícias falsas que circulam nas redes sociais.

Por quê? Porque, na Era da Pós-Verdade, vale menos o trabalho de apuração e divulgação das informações e mais aquilo que você quer que as pessoas acreditem. Resultado: milhares de sites de notícias falsas disputam espaço com notícias de veículos de comunicação e de organizações.

Este tema atingiu o auge da sua discussão pós-eleição do presidente Donald Trump, quando colunistas, influenciadores e veículos vieram à tona para atribuir o resultado das urnas ao compartilhamento indiscriminado de notícias falsas no Facebook. Mark Zuckerberg ficou incomodado e correu para lançar um Programa Facebook para Jornalismo, sobre o qual falei no texto passado.

A rede tem começado a combater o compartilhamento de notícias falsas. Uma das ações foi o lançamento, no início de abril, um guia (página interna) para os usuários sobre como identificar as notícias falsas.

Por enquanto, é apenas uma ação informativa para os usuários brasileiros, mas o Facebook já implementou em outros países (EUA, França e Alemanha) um recurso para que o usuário possa denunciar a notícia como falsa.

Neste países, após a denúncia do post, os grupos de “fact checking” (checagem dos fatos) têm prazo de 72 horas para produzir um diagnóstico. Caso a notícia seja mesmo falsa, o Facebook toma algumas atitudes, como: as postagens que tiverem compartilhado o link receberão um banner indicando que as informações presentes nele foram contestadas; que entidades publicaram relatos precisos dos fatos e onde podem ser lidos; todos os que quiserem compartilhar o link serão avisados de que as informações daquela página foram checadas e onde é possível ler essas análises.

 


O Google também começou a proibir sites que veiculam notícias falsas.
Quando identificadas, essas páginas passam a ser proibidas de participar dos programas de anúncios do Google para páginas na internet. A empresa também afirmou que está revisando as políticas de uso do YouTube para proibir a veiculação de vídeos falsos.

Mas, enquanto esses recursos não chegam por aqui, veja quais são as dicas do Facebook para identificar se a notícia está divulgando informações que não são verdadeiras.

Seguem as dicas:

Seja cético com as manchetes. Notícias falsas frequentemente trazem manchetes apelativas em letras maiúsculas e com pontos de exclamação. Se alegações chocantes na manchete parecerem inacreditáveis, desconfie.

Olhe atentamente para a URL. Uma URL semelhante à de outro site pode ser um sinal de alerta para notícias falsas. Muitos sites de notícias falsas imitam veículos de imprensa autênticos fazendo pequenas mudanças na URL. Você pode ir até o site para verificar e comparar a URL de veículos de imprensa estabelecidos.

Investigue a fonte. Certifique-se de que a reportagem tenha sido escrita por uma fonte confiável e de boa reputação. Se a história for contada por uma organização não conhecida, verifique a seção “Sobre” do site para saber mais sobre ela.

Fique atento a formatações incomuns. Muitos sites de notícias falsas contêm erros ortográficos ou layouts estranhos. Tenha cuidado se perceber esses sinais.

Considere as fotos. Notícias falsas frequentemente contêm imagens ou vídeos manipulados. Algumas vezes, a foto pode ser autêntica, mas foi retirada do contexto. Você pode pesquisar pela foto ou imagem para verificar de onde ela veio.

Confira as datas. Notícias falsas podem conter datas que não fazem sentido ou até mesmo datas que tenham sido alteradas.

Verifique as evidências. Verifique as fontes do autor da reportagem para confirmar se são confiáveis. Falta de evidências sobre os fatos ou menção a especialistas desconhecidos pode ser uma indicação de notícias falsas.

Busque outras reportagens. Se nenhum outro veículo na imprensa tiver publicado uma reportagem sobre o mesmo assunto, isso pode ser um indicativo de que a história é falsa. Se a história for publicada por vários veículos confiáveis na imprensa, é mais provável que seja verdadeira.

A história é uma farsa ou uma brincadeira? Algumas vezes, as notícias falsas podem ser difíceis de distinguir de um conteúdo de humor ou sátira. Verifique se a fonte é conhecida por paródias e se os detalhes da história e o tom sugerem que pode ser apenas uma brincadeira.

As dicas presentes no guia foram elaboradas em parceria com a First Draft, uma organização sem fins lucrativos, com apoio da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e ITS (Instituto de Tecnologia & Sociedade do Rio).

O guia divulgado pelo Facebook, sem dúvida, é um importante passo no combate às notícias falsas. No entanto, o desafio é muito maior do que ensinar as pessoas a identificar esse tipo de informação. Vale lembrar que vivemos na Era da Pós-Verdade e que o compartilhamento de notícias falsas não acontece apenas por desinformação, mas por paixão; por afinidade ao que está sendo veiculado; por querer que aquilo chegue às pessoas; por querer acreditar naquele “fato”. E, assim, a Humanidade vai seguindo e acreditando que uma mentira repetida várias vezes torna-se verdade.

 

Kadydja Albuquerque é especialista em Gestão da Comunicação nas Organizações e sócia do Conversa Coletivo de Comunicação Criativa.

Relacionadas